biodiversidade - Share on Ovi

Babault é um reconhecido especialista da biologia das populaçons humanas e a partir dos anos '80, foi um dos primeiros que reflectiu no conceito de 'biodiversidade'. Na sua reflexom junguem-se duas fontes dissociadas: a ecologia naturalista e a ecologia política. O resultado salienta umha evidência nem sempre destacada: 'a nossa existência alicerça nos sistemas vivintes'. Daí a sua cruzada científica contra o medre do PIB como única variável do desenvolvimento e a sua defesa dumha 'cooperaçom' com o tecido vivinte do planeta.

Os sentidos da biodiversidade.

A biodiversidade é umha palabra na moda cujo sentido profundo, porém, foge à compreensom completa. Os meios resumem-na à relaçom que pode haver entre umha aranha e umha mosca, mas a biodiversidade é umha cousa mais complexa e mesmo mais estratégica que a mudança climática.

Se se inventou a palavra biodiversidade nom foi apenas para afirmar que a vida é diversificada. Nom, foi para intruduzir umha cousa nova e radicalmente diferente: trata-se de tomar consciência das nossas implicaçpons na biodiversidade, que eu defino como o tecido vivinte do planeta. Existem malhas, tecidos e interacçons entre as espécies, entre nós e as espécies. E é esse tecido o que hoje se deconstrói, se destece. A biodiversidade é um fenómeno geopolítico que coloca muitos problemas. Ao nos referirmos à biodiversidade estamos a apreender muitas cousas sobre nós, os seres humanos. A biodiversidade é um espelho, é um problema da sociedade humana e nom dos seres vivos, que bem podem prescindir de nós. O sistema de lobbies que se topa por trás do desenvolvimento actual tem umha potência financeira tal, umha capacidade de comunicaçom e de manipulaçom da opiniom tam grande que chega a sementar dúvidas na gente sobre os problemas derivados da biodiversidade ou da mudança climática. Temos umha visom limitada da biodiversidade, como se apenas se tratar dum catálogo de espécies ou dumha colecçom de cromos. Nom se chega a entender que umha espécie é semelhante à populaçom humana, é um conjunto de indivíduos que depende de recursos, dum território.

Você assinala nos seus trabalhos um paradoxo terrível: a nossa relaçom com o sistema dos seres vivos é destrutora quando, na realidade, o ser humano depende enteiramente da integridade desse sistema.

O jeito de desenvolvimento económico está governado por umha espécie, a humana, que se desenvolveu às toas e que, para viver, precisa de constantes recursos. O sistema económico dominante fijo perder de vista a noçom segundo a que a nossa existência se funda sobre os sistemas vivintes. As energias fóseis, o carvom, o petróleo, som o resultado dos seres vivos. Todo o que comemos provém dos seres vivos, da diversidade. A roupa com que nos vestimos, mesmo se for sintética, provém da diversidade, porque vem do petróleo, e o petróleo é o trabalho da vida durante milhons e milhons de anos. Todo parte das estruturas dos seres vivos, estamos rodeados deles. A razom de ser da diversidade é a estratégia de adaptaçom às mudanças, às catástrofes. Isto explica porquê os seres vivos som tam diversificados e porquê há muito mais do que três espécies na Terra. Para durar num mundo que muda todo o tempo apenas a diversidade tem essa capacidade de adaptaçom.

O papel da cooperaçom.

Você também pom de relevo umha outra das carências da visom contemporánea da natureza. Afunda-se muito nos princípios de preservaçom, de protecçom, mas aborda-se pouco a noçom de cooperaçom entre espécies, concretamente entre o ser humano e o seu contorno natural. Erigiu-se a concorrência e o desenvolvimento como norma, quer dizer, como abusso.

Consumimos demais o que nos dá a vida e esquecemos com isso a noçom de cooperaçom com as espécies. Trabalhou-se mui pouco sobre esta cooperaçom. Até os anos '80 falava-se muito da relaçom entre o predador e a presa mas mui pouco sobre a interacçom, a cooperaçom. Isso levou-me a interessar-me na história do pensamento ecológico. Nesstes textos topei um reflexo da sociedade industrial, quer dizer, o conceito de concorrência por riba de todo, a relaçom comedor/comido. Nom havia nadinha sobre a importáncia das relaçons baseadas na cooperaçom. E porém, na história dos seres vivos, a cooperaçom e as interacçons positivas entre indivíduos da mesma espécie e de espécies diferentes som fundamentais, mais ainda quando constituem a fonte da diversidade e a vida na Terra. Nom nego a existência da concorrência entre as espécies, mas também topamos os mesmos níveis de cooperaçom. Por exemplo, se reflectirmos um pouco, aginha nos decatamos que a agricultura nom é mais que umha relaçom de cooperaçom entre o Homo Sapiens, as plantas e os animais que domesticámos. As sociedades humanas também funcionam por volta da confiança e a cooperaçom. Como vimos com a crise financeira, ao se produzir umha crise de confiança fende-se a sociedade e nada funciona. A mesma lei que rege as sociedades humanas serve para os seres vivos.

Ainda, o modelo de desenvolvimento é totalmente destrutor, à vez da biodiversidade e da ideia de cooperaçom.

Este sistema construiu-se segundo a hipótese da natureza ser umha questom de recursos infinitos, ilimitados. Dos séculos XVI a XVIII essa hipótese podia ser válida, desde que o impacto do ser humano na natureza era moderado. Mas com a aceleraçom do tempo, graças aos desenvolvimentos técnicos e científicos e a irrupçom da sociedade industrial, a populaçom humana medrou imenso e com isso as suas necessidades. Essa hipótese é, daquela, inaplicável. A mudança produziu-se com a Segunda Grande Guerra. A partir daí acelerou-se a depredaçom de recursos. Desde aquela nada detivo o movimento. Hoje sabemos que essa política nom pode continuar. Inventou-se o conceito de 'desenvolvimento sostível', mas tenho a impressom dessa ideia feliz limitar-se a ser umha marca, umha etiqueta, um carimbo carente de benefícios. De feito, por mais desenvolvimento sostível que se quiger promover, se nom se reflecte sobre a falsidade em que se baseou o nosso modo de funcionar, nom serve de muito. Se se quiger mudar o rumo da situaçom é imprescindível levar a cabo essa reflexom, topar em que nos trabucamos a fim de nos reincorporarmos ao tecido vivinte planetário e tomar consciência de que dependemos dele. É preciso mudar muitas cousas de forma radical. Isto nom se vai fazer dum dia para outro. Passar dum sistema de desenvolvimento como o nosso, totalmente depredador, a um outro mais racional, vai precisar de tempo. Desenvolvimento sostível também quer dizer desenvolver a qualidade de vida. Mas claro, se falamos de desenvolvermos o medre do PIB, logo caimos num sem sentido. É umha mágoa, mas é o risco que corremos hoje.

A ditadura do PIB

A ideia de crescimento vai de seu com a de desenvolvimento. Resulta filosófica e politicamente impossível fazer entender que a ditadura do crescimento do PIB como única medida do desenvolvimento humano e do progresso é um suicídio programado.

A realidade é a seguinte: se passarmos a um modo de crescimento mais económico e eficaz, isto permitiria quanto menos ganhar um bocado de tempo para tencionar, quanto menos, mudar de direcçom. Mas o problema que se coloca é que é quase impossível falarmos de decrescimento. Nom se aceita a ideia de o crescimento nom poder ser eterno, é impossível falar disso ou analisar que estamos a pôr dentro da palabra crescimento, que é o que si pode medrar e que é o que nom. Esse foi um dos limites que topei no desenvolvimento sostível. Nom se trata de discutir sobre o sostível senom sobre que é exactamente o desenvolvimento, isso que atinge as sociedades humanas e que deveria permitir-lhes durar o maior tempo possível. A crise da biodiversidade obriga-nos hoje a reflectir nesses termos. Lamentavelmente, a biodiversidade continua limitada às reservas, à ideia simples de preservaçom. E todo continua na mesma porque as referências som estritamente económicas e esse modo de desenvolvimento económico nom leva em conta os estragos que se ocasionam. Muito pola contra, os estragos estám incluídos no crescimento! Quanta mais desfeita, mais aumenta o PIB. Com um indicador assi, mal começamos.

Chegou-se a umha velocidade de destruçom da biodiversidade mil vezes superior à velocidade natural.

A velocidade de destruçom da biodiversidade é consideravelmente maior que a natural e, sobretodo, senom se muda nada essa destruçom vai seguir a acelerar-se. Essa é a principal preocupaçom, que mui poucos levam a sério.

Mesmo se há um debate sobre isso, muitos científicos sostenhem que chegamos à sexta etapa da extinçom.

Depende de como se digam as cousas, porque senom isto pode ter umha fasquia mais negativa do que construtiva. Dize-se: estamos na sexta crise de extinçom e fai-se a analogia com as cinco precedentes, que se produzírom quando o ser humano nom estava aquí e em escalas de tempo que nom tenhem nada a ver com as escalas com as que vivimos hoje. A última extinçom durou milhons de anos. Dito isto, devemos compreender que estamos num processo, numha fase de aceleraçom da taxa de extinçom. Na nossa qualidade de espécie humana temos a capacidade de reagir. Se somos capazes de fazer a guerra dum dia para outro, mesmo quando nom há dinheiro, penso que podemos resolver o problema. Nom penso que vaiamos erradicar por completo a extinçom da biodiversidade, mas podemos tender para umha estabilizaçom, a umha coexistência pacífica com a biodiversidade. Prefiro dizer que estamos numha fase de medre da extinçom, conhecemos a causa e tmos os meios de corrigir a tendência. Precisamos da riqueza dos seres vivios para seguir a ter umha qualidade de vida humana na Terra. Nom é a sobrevivência biológica do homem o que está em causa, é a sua sobrevivência como ser humano com umha grande 'H' o que está no gume, é dizer, a sua dimensom de ser humano. As causas da destruçom da biodiversidade som as mesmas que desencadeam a degradaçom social. Fazer como se fossem cousas distintas, como se os problemas das espécies forem secundários e os problemas do desemprego umha cousa de primeiro plano, nom é pertinente: na realidade, a mesma aplanadora que degrada a sociedade humana degrada o marco de vida das sociedades humanas em todo o mundo.

Como explicar a indiferença e mesmo a irresponsabilidade planetária da populaçom humana, nomeadamente no Occidente, face a degradaçom da biodiversidade e a desapariçom das espécies?

Eu penso que é antes do mais um problema de impotência. Aliás, a populaçom humana é cada vez mais humana e falta um elemento central: a desapariçom da transmisom da informaçom sobre as espécies. Já quase nom ficam avôs para contar como era antes a natureza. Mas o fundamental que aconteceu é que o ser humano se curtou do resto dos seres vivos. Descompujo-se a trilogia judeu-cristá: Deus, homem e natureza. Quando um se banha na visom dinámica da biodiversidade, no tecido do vivinte no planeta, nas suas interacçons, nas relaçons de parentesco que há entre as espécies, no que se chama a árvore da vida, isso leva-nos a tomar consciência de que estamos arreigados mui profundamente no vivinte. Nos nossos gens temos heranças que remontam a milhons e milhons de anos. Portanto, sentir-se um curmao dos outros seres vivos numha época de funda desestabilizaçom equivale a umha forma saudável de arraigamento. A partir daí podemos redescobrir a nossa relaçom parental com as outras espécies, a nossa dependência com o resto dos seres vivos, e ver entom a riqueza que há em todo isto. A nossa relaçom de dependência com os seres vivos também nos dá a nossa liberdade de seres humanos para desenvolver novas cousas. Há um paradoxo na toma de consciência da dependência, que é a vez a base dumha autêntica liberdade.

Os caminhos da humanidade.

Como transmitir esse saber, essa consciência, às novas geraçons? O ensino, que é umha base decisiva, fracassou até o de agora. Nom cumpriria refundar o sistema educativo para desenvolver as noçons de biodiversidade, cooperaçom, interacçom?

A educaçom continua a ser essencial. A educaçom deve ser um instrumento de formaçom do espírito crítico.

A ecologia política tem um lugar sobranceiro no discurso e na sociedade. Logo os ecologistas nom pecárom por falta de amplitude, por umha incapacidade de explicar com mais generosidade a relaçom do ser humano com a natureza?

Essa crítica é válida tanto para a ecologia política como para a ecologia científica. Se repararmos na história, a ecologia nasceu pouco depois da explossom da Revoluçom Industrial com a influência de Thomas Malthus e os problemas que colocou por volta do equilíbrio entre o medre da populaçom e os recursos. Aginha os científicos se pugérom a olhar como funcionava a natureza, em que se baseava a regulaçom das plantas e dos animais. Daquela a ecologia colocava perguntas que hoje coloca o desenvolvimento sustentável. Era o problema de fundo. Mas depois, aos poucos, a ecologia foi monopolizada polos naturalistas. Começou-se a falar das populaçons animais e vegetais, dos ecossistemas, como se o homem nom tiver nada a ver. De feito, pujo-se ao ser humano de costas. A ecologia política fijo o mesmo, com o condicionamento negativo de a ecologia política nom apoiar-se na ecologia científica. Nom estou certo de um só partido político puder responder os problemas que nos coloca o mundo dos seres vivos. Para mim, o importante é o que eu chamo ter umha visom ecológica do mundo. Devemos passar dum mundo onde se alviscam as cousas de jeito parcelário a um outro onde se percebem as interacçons entre o todo e o todo, tanto entre as mesmas sociedades humanas entre ellas, como entre as sociedades humanas e o resto do mundo. Esta visom permite compreendermos as interacçons e os danos colaterais. Com essa focagem estamos certos, somos conscientes de pertencermos à biosfera. A gente nem é consciente da atmosfera ser um recurso natural e que também é resultado do trabalho dos seres vivos. Se nom tivesse havido vida na terra, nom teríamos atmosfera.

Finalmente, a ideia individual de desenvolvimento, quer dizer, de crescimento, esmagou todas as outras.

O acento que se pujo na individualizaçom foi nefasto, mas essa ideia é também umha das riquezas das sociedades occidentais. Se nom se controla como é devido, ou se nom temos consciência dela, colheitamos apenas o negativo. A liberdade para cada indivíduo nom exclui a responsabilidade e a interacçom. Fixe-se senom na história dos Estados Unidos, inçada de páginas obscuras. Estados Unidos é um dos grandes, grandes problemas, é um dos responsáveis mais decisivos pola situaçom actual. Há umha cousa mui perversa no sistema norteamericano: por umha banda está a imagem de liberdade total, do império do bem. Mas nom é assi. Quando analisarmos o resultado da cimeira de Copenhague, a culpa do fracasso nom é da China nem da Índia. A situaçom à que chegamos produziu-na a sociedade occidental. Temos depredado muitos países, por exemplo. Mas o sucesso da sociedade occidental forjou-se com o tributo obscuro que pagárom os escravos, a trata de seres humanos, o expólio. O saqueio dos recursos do mundo enteiro fijo a nossa riqueza mas hoje nos conduz a constatar que mesmo o clima se degrada. Os responsáveis, logo, somos nós. Se fóssemos sérios nom diríamos que a culpa a tenhem os chineses, ou a Índia, por quererem imitar-nos. Haveria que dizer: pacamos demais e, agora, devemos sandar a situaçom. Lamentavelmente nom se procedeu dessa maneira e imos perder 30 anos. Occidente perdeu umha oportunidade. Todo isto é consequência do culto ao individualismo que nos leva a perder de vista umha noçom essencial: nas sociedades humanas, o mais importante é o social, mesmo na economia. Sem a dimensom social o homem nom existiria.

Robert Barbault, é professor na Universidade de Paris VI, especialista na biologia das populaçons e na ecologia.

 Fonte: Galizalivre


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